*A Parte 1 consta na publicação “Mal-humorados – um guia de conduta para com eles” que você pode encontrar em alguma sobra de estoque em alguma livraria na internet ou, com um pouco mais de sorte, em uma lata de lixo. As duas partes podem ser lidas de maneira independente. Ou algo assim.
A vida segue abagualada na fronteira. O mundo contemporâneo ainda não chegou por lá e nem se atreve: pouco poder aquisitivo e muito pau-de-fogo disposto a combater a estrangeria.
A fronteira segue como modelo na exportação de carne para o Brasil inteiro e de vigilantes para o restante do estado do Rio Grande do Sul.
Na fronteira, pra quem não sabe, não se tira par ou ímpar: atira-se um contra o outro (disparos de 38, cano curtinho, fabricação argentina) e conta-se os chumbos no corpo de cada baleado.
Quem tomar mais tiros, perde.
E é nesta mesma fronteira-oeste – terra em que música norte-americana ou inglesa é proibida nas rádios, que as religiões oficiais são o Brizolismo e o Getulismo e que a população válida está sempre disposta a pegar em armas contra a Côrte – que vive nosso quase célebre personagem: Doutor Engodo, o curandeiro-xucro.
Mesmo com a construção de um hospital no “povo” – ou cidade, para os desavisados – a população local não se rende aos sortilégios da medicina moderna. Continua a preferir nosso ilustre especialista em pseudomedicina.
- Doutor Engodo, Doutor Engodo!!! Socorro, Doutor Engodo…
- Calma que tô indo – diz nosso herói através da janela, enquanto termina de cevar o mate – Pronto, tô aqui… fala, piá cagado!
- Doutor Engodo, o Terêncio, filho do capataz da fazenda do Coronel Ayala, sabe, aquele que é vaqueano nas lides…
- Sim, sim, sei quem é o guri! Que é que houve? Desembucha logo!
- Doutor, ele caiu do cavalo e tá desacordado lá na fazenda…
- Vou encilhar meu baio e já vou. Avisa lá na fazenda que tô indo e que me esperem com água quente!
- Sim senhor, Doutor Engodo!
O grande xamã continentino encilha seu cavalo baio em poucos minutos e ruma, a trote, para a estância do Coronel Ayala, portando 2 malas de garupa.
Chegando ao local, é recebido com ovação pela plateia presente: 3 peões da estância, 2 guris (um deles o que deu o recado) mais o Coronel Ayala, que está bastante nervoso.
- Até que enfim, hombre, hay que morar mais perto de nosotros… moras muy lejos… mas venha, venha, Doutor Engodo… que mi hijo está muy malito…
Doutor Engodo salta do cavalo e entra na casa do Coronel. Como é antigo “médico” da família, já sabe em que quarto se encontra o rapaz.
Nosso mestre das artes medicinais campechanas dá uma olhada no paciente, cutuca-o uma meia dúzia de vezes com o dedo indicador, abre-lhe as pálpebras e anuncia ao dono da casa:
- Coronel, o senhor confia na minha pessoa, não confia?
- Claro, hombre, pelos años que é o médico desta família e por nuestra amizade, confio plenamente… mas por que estás a me perguntar eso?
- Por favor, me deixe sozinho com o paciente, feche as janelas e a porta.
- O que for preciso, Doutor. E a água quente…
- Tá na cambona?
- Si...
- Entonce, manda trazer e deixa aqui perto da cama, por obséquio.
- Ahora mesmo, doutor!
- Maria!!!! A cambona aqui pro Doutor!! – berrou o Coronel para a empregada da casa.
Feito o processo, nosso experiente clínico do empirismo-guasca certifica-se de que não há viva alma pelas imediações do quarto e posta-se ao lado da cama, de pé.
- Tá, Terêncio, deixa de palhaçada e abre o olho!
Nada
- Deixa de frescura e abre logo esse olho. Só tô eu aqui no quarto!
Nada
- Tá certo. Eu avisei pra abrir…
Um sujeito teimoso pode até ser uma mula, mas um soco no saco é, certamente, o Rei das argumentações.
O paciente não só acorda do sono profundo, como urra de dor em posição fetal.
- Pelo visto o amigo está apresentando melhoras… – diz Doutor Engodo, enquanto abre uma das malas de garupa, retirando a cuia com o mate já cevado (embora meio desmoronando) e completa a tarefa servindo-se com a água quente da cambona (cambona, a propósito, é como a própria chaleira é chamada em qualquer lugar ao sul do Brasil em que o acordeón é considerado o único instrumento musical digno de respeito) e sorvendo longo gole de chimarrão.
- Bah, Doutor… precisava bater no meu saco? – gemeu Terêncio
- Não precisaria se tu não tivesses ficado aí, parado, tentando me enganar.
- Mas como o senhor sabia? – perguntou o rapaz, recuperando as forças.
- Vancês guris cagados pensam que a gente mais antiga não sabe das coisas. Faz mais de mês que tô sabendo do teu rabicho com a filha do Geremia… que tuas idas pro povo nunca chegam no povo…
- É verdade, Doutor Engodo – assumiu o rapazola, encabulado – É a mais pura verdade… mas… como o senhor sabia que eu não tinha desmaiado?
- Muito simples, meu amigo. A filha do Geremia é mais rodada que roda de carroça. Semana passada atendi mais dois piás cagados que também andaram frequentando as intimidades da moça. Quando o piá apareceu lá em casa gritando, eu já sabia o que era. Tu és o terceiro que sofre um acidente por esses dias… enfim, bota o pau pra fora que eu só quero ter certeza
Completamente sem jeito, nosso galã mostra a ferramenta para o clínico de a cavalo.
- É grave doutor?
- Não. Pra tua sorte, não. Tó – diz entregando uma pomada (caseira, claro)
para o rapaz – passa isso no pau durante 20 dias e depois passa lá em casa pra eu ver como que tá essa machucadura!
- Obrigado, doutor… mas…
- Eu vou dizer pro teu pai que foi um desmaio por conta da queda. Eu só não sei como caíram nessa história de tombo do cavalo…
- Ué, por que, Doutor Engodo?
- Aquele teu cavalo é um pangaré. Até uma criança monta. Mas também, o que não parece com o dono é roubado. Agora começa a cuidar onde tu enfia isso daí, que na próxima te corto o pau fora! – disse, servindo outra cuia e abrindo a porta com estardalhaço – Indiada! O rapaz tá fora de perigo!
- Gracias, diós… gracias, Doutor Engodo…
- Não é nada, não é nada… – responde nosso doutor, com fingida modéstia.
E é por essas e outras que a população jamais se entregará a modismos como hospitais, médicos diplomados que lavam as mãos e remédios fabricados pela indústria farmacêutica.
Neste momento, Coronel Ayala, rico estancieiro, passa pessoalmente de casa em casa no povoado.
Está recolhendo assinaturas para mandar ao Vaticano.
Quer beatificar o Doutor Engodo.






